Figurino

– Então tu é o maior dos poetas.
– Sim, sou o maior dos poetas.
– Deve ser legal, meu. Ser o maior de alguma coisa.
– É. É legal.
– Tu tá escrevendo afu?
– Aha.
– Me diz alguma coisa ai. Que tu escreveu.
– Fiz um poema imortal esses dias. O poema mais mortal dos imortais.
– Diz ai.
– Começa assim “Fui no sarau”.
– Ahm.
– “Esperei os poetas recitarem”
– Aham.
– “E joguei Fernando Pessoa no palco.”
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CARLITOS

Eu gosto mesmo eh de textao de sujeito que passa vergonha no debito, ai erra a senha e passa a mesma vergonha no credito. Sao os únicos que eu nao tenho preguica de ler. Mas hoje eu li um outro tipo de textao que eu achei legal. Carlos Drummond de Andrade, o nome do camarada. Nao sei se eh fake News as coisas que ele diz nos textao, na real eu nao entendi bulhufas do que ele escreveu, me parece que ele ficou dando enter entre uma linha e outra, nao escrevia ate o final das frases e tal, ate fiquei com um pouco de medo, ele escrevia assim

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pai

As palavras e os números

Comparam nossas alturas

Nossos pés

– Não nossos passos -.

Seus sapatos são apertados

Para meus caminhos

Os meus, frouxos demais

Para os dele

 

Nossos silencios se

Contemplam e por um instante

Se completam:

 

Esta ele menor.

 

Onde está o homem

Daquele Olhar indiferente

Da autoridade fugidia

Da lenda mais obsoleta mas absoluta

Que cultivei por tanto tempo em jardins tão secretos

 

Onde está aquele homem

Das ausências

Que tive a piedade necessária

Da covardia

Para jamais matar em meus

Complexos

O vazio da cadeira

O chinelo sem espectro

O armário sem fantasma

Se move, caminha, assombra.

 

Traria de volta o Mito

A estátua a tragédia o Museu

Abandono o abandono

Para vê-lo

Homem de carne

Pai de carne

Fantasma de carne

Deserto de carne: comédia.

 

Bela esta risada

 

Por que porque em nome do sangue vermelho devo

Assassinar esta flor

Estúpida por ser rosa

Desertificar o que me constituiu

Tirar o cimento e o peso cinza do espelho

E o peso e o cimento do caixão Dela:

Não, não é mais tempo

De primaveras

 

O tempo é árido, vasto, varrido e

Morto. Ressuscita-lo?

 

Onde estão aqueles livros

Que me ensinaram

Que a literatura se curva ainda

Aos mais desesperados

Onde estão aquelas políticas

Que me ensinaram

Que as ideologias

Se curvam às guerras

Onde

Ainda

Aonde

Se foram aquelas paixões

Que me ensinaram

Que teus amores

Se cursaram aos ódios

 

Vai, figurante de pai

Vai, Desencanto de doçura

Vai, Figura patetica de paternidade

Vai

 

Embora tragas aquele Judas aquele Fausto aquela prostituta e aquela rejeição

Tira de algum recanto aquele meu medo meu nojo meu ódio

 

Preciso do impreciso e indecifrável

 

Como devorarei o meu filho

Sem fome de enigma

Com que trauma salvarei o próximo

E o distante

 

Ofusca este Sol

 

 

Antes que me diga que o melhor que o melhor que teu filho escreveu

 

Foi que o pior da escuridão é poder

Vê-La.