Artigo publicado na Gazeta do Povo – 18/03

 O poder da fome e os que têm fome de poder

 | Katiê Muller/Arquivo Gazeta do Povo

Segundo estatística do IBGE, 16,2 milhões de brasileiros estão em situação de extrema pobreza. Isso corresponde a 8,5% da nossa população. A barriga do brasileiro é um banquete para a política. 8,5% dos brasileiros só começarão a pensar em ideologia, Estado mínimo ou Estado máximo quando pararem de passar fome.

Mas 8,5% votam e devem votar – isso é inquestionável. Estamos falando de 16,2 milhões de votos que conseguem ser captados por 16,2 milhões de refeições. Ou alguém duvida disso?

Explico aos de barriga cheia: coloque 8,5% da população a passar fome por uma semana. Ela perde a fé em Deus e em si mesma, não exatamente nessa ordem. Coloque 8,5% da população na miséria absoluta por duas semanas e ela venderá seu voto e o pouco de convicção que ainda tem por qualquer refeição. Durante este processo, dê a 8,5% da população brasileira toda a biblioteca já escrita pelo homem. Ela agradecerá profundamente e a usará para fazer sopa de papel.

A miséria de 16,2 milhões de brasileiros é, sem dúvida, a miséria de todos

 8,5% do Brasil votará em qualquer ideologia que o tire da fome, por um instante ou pelo restante de sua vida, ou seguirá qualquer demagogo que prometa erradicá-la. Primeiro, porque 8,5% do nosso povo não tem fome intelectual para discutir metafisica politica, pois está ocupado com a dor física de sua fome. A fome os descaracteriza. Tira-lhes o nome. Nós estamos falando de uma cartada de completa sujeição e controle de 8,5% do nosso povo e que pode ser dada por qualquer perverso que a saiba usar. Se o âmbito se restringir à tentação das promessas e à sedução dos discursos, basta que seja elaborado pelos malabaristas da oratória. Doutores políticos e militantes os seguirão e os defenderão arduamente; então, os 8,5% sofrerão o milagre da multiplicação dos pães.

A educação é primordial neste país. Mas 16,2 milhões de brasileiros não se formarão doutores em Medicina, Ciências Sociais, Economia, Direito, Engenharia, não se formarão no ensino médio, e nem aprenderão a ler enquanto estiverem na extrema pobreza. Primeiro, porque a consciência é produto de um processo lento. Morrer de fome é um processo menos lento. Discussão de Estado mínimo ou Estado máximo vem no restaurante, vem no café com torta, vem na mesa de jantar. 16,2 milhões de brasileiros não estão nestes “ambientes de luta”.

O dia em que qualquer ideologia deste planeta (que não esteja acorrentada à estatística do genocídio) conseguir erradicar a fome do nosso povo, será muito provavelmente absoluta. O problema é que ela nem precisa ser, basta-lhe parecer. A miséria de 16,2 milhões de brasileiros é, sem dúvida, a miséria de todos. 8,5% de brasileiros à espera do próximo arroz com feijão. Pense nisso: nas últimas eleições, Dilma ganhou por uma diferença de 3,28%.

Guilherme Bacchin é escritor.

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Figurino

– Então tu é o maior dos poetas.
– Sim, sou o maior dos poetas.
– Deve ser legal, meu. Ser o maior de alguma coisa.
– É. É legal.
– Tu tá escrevendo afu?
– Aha.
– Me diz alguma coisa ai. Que tu escreveu.
– Fiz um poema imortal esses dias. O poema mais mortal dos imortais.
– Diz ai.
– Começa assim “Fui no sarau”.
– Ahm.
– “Esperei os poetas recitarem”
– Aham.
– “E joguei Fernando Pessoa no palco.”
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CARLITOS

Eu gosto mesmo eh de textao de sujeito que passa vergonha no debito, ai erra a senha e passa a mesma vergonha no credito. Sao os únicos que eu nao tenho preguica de ler. Mas hoje eu li um outro tipo de textao que eu achei legal. Carlos Drummond de Andrade, o nome do camarada. Nao sei se eh fake News as coisas que ele diz nos textao, na real eu nao entendi bulhufas do que ele escreveu, me parece que ele ficou dando enter entre uma linha e outra, nao escrevia ate o final das frases e tal, ate fiquei com um pouco de medo, ele escrevia assim

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pai

As palavras e os números

Comparam nossas alturas

Nossos pés

– Não nossos passos -.

Seus sapatos são apertados

Para meus caminhos

Os meus, frouxos demais

Para os dele

 

Nossos silencios se

Contemplam e por um instante

Se completam:

 

Esta ele menor.

 

Onde está o homem

Daquele Olhar indiferente

Da autoridade fugidia

Da lenda mais obsoleta mas absoluta

Que cultivei por tanto tempo em jardins tão secretos

 

Onde está aquele homem

Das ausências

Que tive a piedade necessária

Da covardia

Para jamais matar em meus

Complexos

O vazio da cadeira

O chinelo sem espectro

O armário sem fantasma

Se move, caminha, assombra.

 

Traria de volta o Mito

A estátua a tragédia o Museu

Abandono o abandono

Para vê-lo

Homem de carne

Pai de carne

Fantasma de carne

Deserto de carne: comédia.

 

Bela esta risada

 

Por que porque em nome do sangue vermelho devo

Assassinar esta flor

Estúpida por ser rosa

Desertificar o que me constituiu

Tirar o cimento e o peso cinza do espelho

E o peso e o cimento do caixão Dela:

Não, não é mais tempo

De primaveras

 

O tempo é árido, vasto, varrido e

Morto. Ressuscita-lo?

 

Onde estão aqueles livros

Que me ensinaram

Que a literatura se curva ainda

Aos mais desesperados

Onde estão aquelas políticas

Que me ensinaram

Que as ideologias

Se curvam às guerras

Onde

Ainda

Aonde

Se foram aquelas paixões

Que me ensinaram

Que teus amores

Se cursaram aos ódios

 

Vai, figurante de pai

Vai, Desencanto de doçura

Vai, Figura patetica de paternidade

Vai

 

Embora tragas aquele Judas aquele Fausto aquela prostituta e aquela rejeição

Tira de algum recanto aquele meu medo meu nojo meu ódio

 

Preciso do impreciso e indecifrável

 

Como devorarei o meu filho

Sem fome de enigma

Com que trauma salvarei o próximo

E o distante

 

Ofusca este Sol

 

 

Antes que me diga que o melhor que o melhor que teu filho escreveu

 

Foi que o pior da escuridão é poder

Vê-La.