Português Brasileiro

Meu artigo publicado na Gazeta do Povo, 08/07/18.

PORTUGUÊS BRASILEIRO

O Brasil precisa de professores. Mais do que militares, mais do que militantes, mais do que advogados, mais do que médicos, mais do que engenheiros.

O Brasil precisa aprender. Precisa aprender o idioma da sua história, o que Bandeira falava para o brasileiro quando escreveu o poema O bicho, o que Drummond queria nos contar quando disse ao nosso povo “os lírios não nascem da lei”.

Precisa aprender qual idioma falava sobre o ouro que era nosso, que idioma falavam as matas que foram silenciadas, qual idioma falava o índio antes de aprender a falar. O idioma da fome e o da fumaça da pedra – os dois adentraram o nosso caminho.

Precisa aprender qual o idioma dos olhos que olham para a cor da pele, qual idioma dos olhos que olham para o corpo, qual o idioma do medo que nós temos uns dos outros. Qual idioma vende a droga, qual o idioma compra a propina, quais idiomas batem os martelos. Precisa aprender o idioma do ferro que cercou a Amazônia, o do tanque que cercou o Planalto, o do veneno que matou Mariana e Marielle. O idioma das correntes que libertaram os escravos, o dos ventos das caravelas, e o do lixo que cata o professor para poder comer.

O Brasil precisa aprender para ensinar os filhos que nascerão desta terra.

Eles não precisarão de um futuro. Precisarão de um passado. Quando o brasileiro aprendê-lo, ele passara a existir. Não basta colocar a palavra “não” na frente de um enunciado histórico para transformar a realidade – Saramago já o fez.

O Brasil não é nosso. Ele é da cor de todas as nacionalidades que se apossaram do país lindo por natureza: preta – como o petróleo e o luto. O país que mais saqueia no mundo foi o pais mais saqueado do mundo. O país mais humilhado do mundo grita nos tabloides europeus, “nossos professores estão sendo humilhados”. Nos fale sobre ironia, Machado de Assis.

Ensinem as crianças os idiomas da nossa diversidade, e nós teremos crianças que finalmente saberão ler o português brasileiro. E os outros idiomas lerão a nossa história escrita por eles. Precisamos de professores. E os professores precisam de nós. Chega de ensinar ao mundo o que é não ensinar um povo.

Guilherme Bacchin
Escritor
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6 thoughts on “Português Brasileiro

  1. Nós também temos diversidade aqui na Europa Oriental. E, especialmente, temos separação em nome da diversidade. Alguns países foram divididos em pedaços, de uma maneira ou de outra. Isso é bom para alguns: “divide et impera”, você sabe.

    No meu país, hoje em dia, tudo bem desprezar o seu próprio país. Mas não é correto desprezar a Europa, a Europa Ocidental ou a União Européia. Se você fizer isso, você será marginalizado; as pessoas vão pensar que você deve ser algum agente russo ou chinês, um terrorista em potencial ou talvez apenas insano.

    Tem sido dito que todas as nações inventaram seu passado; as pessoas precisam mitos fundadores. E acredito que esses mitos são verdadeiros, não literalmente, é claro, mas em seu profundo significado simbólico. Agora, no meu país, mitos nacionais estão sendo eliminados e algumas pessoas estão realmente ocupadas fazendo isso.

    Não sei muitas coisas sobre o Brasil, mas sei o suficiente para invejar este país em alguns aspectos.

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    • Entendo que não deve ser fácil, meu amigo. Mas seria um tanto ingênuo que a Europa assistisse na plateia as nações “inferiores” afirmando independência cultural e auto-suficiência nacional. Nosso povo, em geral, gosta pouco ou quase nada do povo português – um rancor que se mistura pelo tratamento que recebemos em Portugal.

      Eu não tenho nada contra. É um povo inteligentíssimo e que vive de sua glória passada – o grande obelisco cultural do Ocidente. Tenho orgulho de ter sido colonizado pela cultura portuguesa. Não tenho orgulho do que os irmãos lusitanos fizeram com o meu povo.

      Nosso povo merece um futuro. Nenhuma nação neste país é propriedade de outra. Nossa crise educacional é profunda. Há uma falência generaliza em todas as grandes instituições do meu país.

      Tome como termômetro o nosso futebol. Ele foi uma dos últimos pilares da nossa nação que também ruiu. O futebol brasileiro, hoje, é patético.

      Penso que a última instituição que nos resta é o humor e a vocação nacional de fazer piada com tudo. Nisso somos realmente bons hehe.

      Somos um povo cordial, como disse Sérgio Buarque. Amamos com o coração, odiamos também com o coração. Terras tropicais produzem populações de temperamentos calientes e picantes. Terras invernosas influenciam também a personalidade das nações – depressão, suicídio, esquizofrenia etc.

      Mas entendo que, pela proximidade da Europa, teu país sofre mais pelo exercício da própria expressão, meu amigo.

      Nenhum ser humano merece ser escravizado.

      Os mitos simbólicos fundantes são fundamentais – como ponto de partida, gênese, princípio. Não são e não devem ser eles que determinam o que o próprio povo decide fazer de seu país.

      Conheço alguns brasileiros que se ajoelham perante o trono português de outrora. Eu acho esses camaradas digno de pena, e nosso país os vê da mesma maneira. Não passam de bobos da corte em Portugal. Sabes que somos, aos olhos de uma parcela significativa da Europa, uma sub-raça.

      Pois bem, camarada. Não somos. Nem meu povo, nem o teu,

      Saudações do Brasil!

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  2. Não há Português Brasileiro, o Português é apenas um, os sotaques, esses sim, são vários. 🙂
    Quantos aos professores, eles são o futuro de um país, eles não transformam o mundo, ela transformam as pessoas e são as pessoas que transformam o mundo!

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    • Hehe.

      Em momento nenhum afirmei o que tu negastes. És brasileiro ou brasileira? O “Português Brasileiro” foi utilizado no título pelos seguintes motivos:

      1 – Nossas crianças cometem esse erro crasso de definição da língua. Um dos motivos é a não-educação do nosso povo. O erro é um argumento para o texto.
      2 – Ele carrega também um sentido simbólico de um idioma definitivamente nosso. Onde se diz idioma, língua, cultura, leia-se “Brasil”.

      Um país livre dos grilhões exteriores. Minha crítica não é uma afronta à Europa, aprecio a cultura de lá.

      Minha crítica foi direcionada às nações que nos sugaram. A crítica, não o artigo.

      O texto não teve intenção de atacar uma nação ou outra. Teve a intenção de defender o meu país. O nosso, se fores brasileiro ou brasileira.

      Abs!

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      • Sim eu entendi e gostei do texto. Sou Portuguesa mas conheço bem a história do Brasil e todos os problemas que o país enfrenta, inclusive a nível da educação. Os problemas que os Brasileiros têm são semelhantes aos nossos.

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