Augusto Soares – Heterônimo

O voo da Palmeira

 

Enquanto Lisboa trafega pelo

Rio

Pairando sobre nos a semiótica

Dos velhos Deuses de papel

– o Sol é o Deus deste país –

 

você disse a mim

5km NE, Lisboa

você trouxe a bandeira brasileira

e o arsenal do sabiá?

 

Calma, eu disse a você

Ainda estamos nas múltiplas

Chances de nos perder

Antes de descobrir Portugal

 

Palavras em algum poema mortal

Que certamente sacamos do bolso

Como as estatísticas

Letais.

 

E você disse

 

Lembra daquela palmeira

Em Copacabana?

Um filho português certa vez

Embarcou no mar e o abarcou

 

Você acha que aquela

Palmeira um dia

Ha de abarcar o mundo?

 

O mundo se aglomera

Nos homens

Os homens se aglomeram

No mundo

 

E então você colocou

Um pouco da velha carne no

Bolso, numa arte impossível

E eu juro que esperava

Um poema que alinhasse

As múltiplas mortalidades

De um poema

mas não:

 

Era só sua moeda preferida.

 

E você disse

 

Lançaremos ela ao grande

Navegador dos mares, o vento

Antes que ele descubra Portugal

 

Cara: cara

Coroa: a palmeira

Abarcará o mundo

 

 

E naquela época, prestes

A descobrir o futuro da

Sua moeda

Eu escrevia poemas num idioma

Que destronou o grande poeta

Americano

Com canetas que perderam-se

Da tampa e do tempo

 

E então você disse

 

Você é tão fotogênico

Sob meus olhos

E a beleza disto tudo

Um dia há de chamar-se

 

Saudade

 

Não sei se caberíamos

Na fotografia do poema do 11 de setembro

De Szymborska

Mas sei muito bem que sim

 

E então você disse

 

O sonho;

Coloca-o na vida

Não na obra

Acho que a tendência estatística

Da poesia

É despertar mais rápido

Do que a vida.

 

O primeiro verso é um pesadelo

It’s a nightmare

We’re heading to Lisboa

O ultimo verso

Continua sendo o primeiro

 

Por isso tão fácil é

Despertar das palavras.

 

É sempre bom, você disse

 

Ter algo para odiar

No bolso impar que calca 42

Talvez 43

Não leia The New Yorker

Eles não entendem

A geometria psicanalítica

 

A mente se expande e se retrai

Isso chama-se espaço

ID, ego e superego

 

O tudo em ti

Não é o todo.

 

E então eu disse, avistava Lisboa

 

O mundo se aglomera nos homens

Os homens se aglomeram no mundo.

 

Essa foi a única resposta

Que eu tinha para lhe dar

– eu adorava repetir seus conceitos

eternos, apesar de saber que eles eram finitos

em minha boca suja de silêncio –

 

não queria te dizer

que o perímetro espacial do inconsciente

fosse uma guerra

na qual os números

jamais venceriam.

 

Porque você sabe,

Despertar-nos era algo

Que meus mapas não sabiam

Fazer.

 

Coloquei as mãos no calibre 42

De meu bolso e retirei uma dose

Do velho                silêncio

 

E Você disse

Bandeiras não falam

Nem despertam

Não ha som nas colisões

Neuronais

 

O grande viajante, o vento

Qual será sua nacionalidade?

 

Até que eu disse

 

Nós poderemos

Não poder

A eternidade

 

E talvez isso seja o

Mais perto

Que chegaremos dela.

 

E então você não disse

Nada.

 

Ao chegarmos em Portugal

A moeda voou pela Palmeira

E caiu no chão de Lisboa:

 

Foi então que

Eu vi

A coroa.

 

 

– Augusto Soares.

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