Heteronimo mulher – Maria Raiol

Língua-Portuguesa

 

és tu agora

nessa alma de noite, nessa noite da alma,

língua minha?

sem memórias

e sem mistérios

e sem consciência e sem engano

para o Tudo do antes

e o Todo do depois?

 

como devo eu chamar-te

se és estranha.! total estranha

para mim, e eu para ti

mas és tu agora

regendo a mão desta poeta

e desta falsa existência

existência tem

essa passagem de gente toda

desumana pelo mundo nenhum

 

quantas orações, nenhum milagre

orações que foram minhas

e só disseram de mim

(mas o Deus quem sabe é nosso…)

 

e que tu me deste, é realidade

a palavra amor

a palavra recém-nascida, a palavra-ventre

como qualquer palavra outra, sempre despida

sempre toda

mas se me deste a palavra

e ela dizia de mim e não de ti

como pode o amor ser teu

se ele era meu, língua-minha?

 

língua portuguesa,

Maria me chamo, Maria de pai Bento, Maria de Nada e Nenhum

mas sou Maria de ti

que não vive em mim

mas em mim é que estas

não estou no tempo

não estou na realidade

sou a própria língua que canto, de fato

não sou real, mas sou verdade.!

 

quantas vezes, quantas vezes

a pergunta espontânea na palavra agora

a reflexão tardia na palavra ontem

o silencio honesto na palavra sempre

o carrasco preguiçoso na palavra ponto

.

 

esta poeta não viu vento algum

ou fogo ou canha o ou fúria celeste ou humana

ou divina ou material

mas sei bem que a tua palavra “não”

tem força bastarda e maior do que estas outras

e nem realidade ela exige a si! e nem realidade ela tem

 

o que tens a me ensinar, língua-mãezinha

língua-berço,

dormem em ti todas as verdades do homem

(que honestidade há de se dizer de todo o silêncio

se no seu primeiro fragmento de tinta

ele é simplesmente destrocado;

não por palavra

mas por uma letra que nem letra

ainda o é – quem o destrói não é o dizer,

é o gesto)

saber, mensagens,

pontuais, genéricas

soluçantes, precisas

desumanas, sempre desumanas

e poeira de carne ou de coisa…

 

por que devo dizer

que há mais beleza na beleza

ou na flor que no homem

ou mais justiça

na sentença que na mentira

ou mais espanto

no trauma que na memória

ou mais fôlego no medo

que no amor

não digo. digo que são só palavras

palavras não têm fortuna

não tem glória

quem têm são as coisas

e as coisas não têm nome.!

 

independência ou morte!

posso remanejar, brincar de arquiteta da língua

mas não posso brincar de arquiteta do tempo

e da realidade

porque o tempo e a realidade e tu,

língua-minha, língua-amada,

são tríade da mesma carne

subjetiva do homem sem mundo

mas tu, criança de infância a brincar descalça

ao contrário dos dois

estás sempre a fazer o que não faz

e sempre a ser o que não és

e se digo independência & morte

não te escutam tempo

nem realidade

(te escutas tu através de mim?)

qual silêncio, agora, é corajoso o bastante

pra escutar e, aqui, se permanecer?

 

e se tu soubesses

que Deus usou a ti para conjugar leis

homens usaram a ti para conjugar leis

poetas usaram a ti para escrever versos

és tão usada e tão gasta

e te permanece tão intacta

como a escuridão dos cegos,

se tu soubesses como bem o sabes

permitirias a Deus e aos homens e aos poetas

como bem permites?

 

analfabeto, que entras

agora na livraria

e, maldito, dá dois passos

e chega, sem intento, a este livro

 

abrindo-o nesta exata página.

enfrentando o clarão do desconhecido.

 

eu te reverencio.

 

e sem poder dizer-te,

eu digo

 

a única maneira

de contar-lhe

sobre tudo que ainda

vem depois

 

é pondo fim agora

neste chamado

Poema.

 

 

– Nascimento de Maria Raiol (6/7/17)

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