Joaquim Lemos – sub-heterônimo

Gestação

 

um chute. sua forca é suficiente para quebrar esta

linha ou esta pala-

vra.

 

um segundo é a duração do chute, porém ali,

esse segundo, conquanto, não existe, todavia

 

a lei da contradição das poesias

e o cardápio dos nexos

me dizem que posso reproduzi-lo

sem jamais torna-lo real.

 

esta forma o ignora, um segundo, o tempo

tudo que cai sobre minha esfera humana

ainda não a condena.

 

ela nada sabe da mortalidade

desta mão que escreve, permanente, precisa

milimétrica,

mas ainda adiada.

 

não lhe serviram o banquete da cruz

logo ali, pendurado e temido

na parede

não, a ampulheta e a justiça ainda não tem nome

nenhum nome tem nome

e nenhum não é ainda soberano.

 

neste ponto do poema

eu posso dizer que o chute

foi no campeonato da escola

junto das geometrias que seriam aprendidas

e que aos seus vinte e um anos seria um troféu

e um retrato. como os amigos.

 

o primeiro dente, talvez aqui.

que ensina a desobediência civil

e a tendência da queda. nos estados.

e nos abismos.

 

mas aquele chute foi dado

na escuridão. teria ela a cor dessa tinta?

dos seus olhos?

ela é implacável, mas aqui ainda não se afirma

como haveria-de-se-afirmar

 

não no porvir de seus joelhos e juntas

e articulações e ossos e entranhas

não no dia que engatinharia as escadas

pagando a promessa

que certamente curou o meu primeiro

tumor.

 

não. sua escuridão se afirmaria no momento exato

da construção

da luz.

 

a selvageria desta forma é tamanha

que habita este tempo

sem jamais corrompe-lo com desejo algum

de eternidade.

 

ela dita este poema

e este verso

e então mais este

e me proíbe, mas não por muito tempo

de significa-la com a palavra

nada.

 

minha liberdade

volta ao tempo do silêncio:

esta forma é simplesmente

Onipotente sobre ele.

 

o primeiro carro, talvez aqui. a primeira saudade.

a primeira lógica. o discurso na formatura. a razão.

o império romano ainda não existe aqui

então eu não preciso

derruba-lo.

Einstein ainda não lhe formulou a relatividade.

Hiroshima e Nagasaki por ela estão intactas.

 

não lhe apresentei o castigo

muito menos o crime da sobremesa

nos seus quatro anos

que neste ponto do poema

não sei se vira.

 

Munch grita na parede

O Grito é inaudível.

a cor existe sem existir.

 

estamos diante de uma mão

que ainda não conhece

a simbiose da arma

da pílula da pele do tremor

e do abismo desta                 – margem.

 

no verso que diz de seu coração

eu não posso dizer a palavra ódio

sou poeta e este é meu poema

mas a forma controla o que pode ou não

ser dito.

 

devo pedir aos meus piedosos Deuses

que se revoltem?

 

não. para ela

o tempo ainda não trouxe

O Deus. nem o pai.

nem o filho.

 

ela ainda não ergueu os muros

dos meus mapas

ainda não descodificou estas sílabas

não entende o sentido nesta ou qualquer

língua. é inútil o próximo verso onde escrevo

que a amo.

 

por um momento eu a torno infinita. tal como

as retas paralelas que lhe seriam apresentadas

e que assim como minha mãe. seu tio.

meu cachorro. seu melhor amigo.

 

jamais haverão de se encontrar.

 

enfim, outro chute. eu olho para sua mãe e sorrio.

 

aqui, outro. meu sorriso é tímido, mas ainda não se desfaz.

 

mais outro. ela é inquieta, eu digo. talvez a inquietude de um poeta.

 

e por fim, por fim, outro. e minha inquietude é de um desesperado.

 

o pugilista na TV

desfere seu melhor sangue

contra a indiferença

da queda

da derrota

da gravidade

da mosca

mas não do Coliseu

 

que grita.

 

uma poça de sangue espesso

toma agora o espaço

na sala

e neste poema.

 

e o bico. o leite no seio.

seu suicídio aos 22. sua mãe.

seu pai.

 

tudo que iria nascer

amanhã

acaba de morrer

agora.

 

eu ainda estou aqui.

 

– Joaquim Lemos

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s