Joaquim Lemos – Heterônimo do Heterônimo

Laura

aqui, formatos de linha e língua

em ti, o desejo de formular o vazio do homem

(genética de Deus)

não repousa teu dorso de pouco poeta

no formato do esquecimento

– antes e depois de ti e do teu: outros maiores e menores.

 

se queres aguçar

teu instinto escondido

do Sol e de Deus e da Ferida

te desafio a enxerga-los:

não consegues. eles te cegam.

se tu lês este poema

ele não é teu Sol

não é teu Deus e não é

tua ferida.

 

se tu és

o genuíno e belo

de algo

e precisas dize-lo aos desertos das capitais

para torna-los reais

saibas que a palavra nasce feia e pobre

afasta essa busca da tua mão sem rumo;

há fartura bastante e

realeza infinita no branco das páginas.

 

laça e alça o teu cadarço às ruas e estados em pânico

teu murmúrio político encontra o muro:

o pássaro não voa por revolta.

 

conjugas o silêncio e o perde: queres dizer.

 

falas sobre a derrota do dogma

a cruz do Deus

e o cais e o caos te confortam porque neles nasce a música

o pouco de um poema pouco

porque assim fizeram os orientais

te repele e repete

 

o inimigo de ti é tu

ele te chama e chama-te: poeira

mas não te preocupa;

enquanto houver

um pedaço de pano anarquista e bandeira

um pedaço de carne e medo e protesto

tu vences o esquecimento

 

no sopro

da tua mão

 

o segredo do espelho te dominou

o amor te ensinou a cólera

teus olhos te traumatizam e não te comovem

nasceste criança do mundo.

hoje és homem de nada além de ti.

 

há um verso teu que ainda será

grande

e é sempre, irmão,

sempre irmão

e sempre, irmão:

o próximo.

 

diz para ti mesmo, não para mim,

ninguém precisa saber

 

– Por que tudo?

 

a essa hora em alguma escuridão por ofício

o corpo de alguém – reza

ao Deus que tu derrubas no teu tribunal

colhe uma única flor

que tu tornaste de papel

e confronta com a própria carne de toda humanidade

o exército

que tu afirmas

render na impotência da tua solidão.

 

teu verso nada diz do belo e muito diz do bélico

bélico tornou-se teu sonho

e tua consciência

e tua fantasia

e tua poesia

 

esquece tuas armas –

repousa tua cabeça no gramado verde, irmão

 

tua cama está fria e hoje nada é

além de cama

teu excesso de poesia:

apenas um excesso de poesia.

 

não tens o equilíbrio necessário

não percebes do insignificante no retrato

ignoras o cachorro da rua

e sentes com um dicionário velho:

 

és tu o grande gênio.

 

o mundo te persegue

e não sabe de ti

 

um amor apagaria

,

um carinho apagaria

,

uma mão quente sobre tua mão

fria que apagasse teu verso, também apagaria;

 

sempre foi tão pouco. e nunca foi tão impossível.

 

tu dominas uma gramática

há leis em ti latins láureas;

 

– só precisavas de uma Laura.

 

diga-me com a lágrima sintética que te resta

quando confundiste uma língua não tua

com os lábios

teus.

– Joaquim Lemos (importa/a/data?)

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