Augusto Soares – Prólogo da Heteronímia

A MORTE DO PORTUGUES

                                                                        – para o heterônimo do heterônimo (ou por que não para o amor?)

– Mas você é poeta, cara

– Tudo bem com isso, não?

– Não sei, você é desses, desses que confunde heterônimo com realidade, desses que pensa que os poetas são as travas dos despertadores, não é?

– É isso, ou sonhar, não é?

 

os olhos de James

os olhos de James

e os olhos de James

eles tinham um pouco

da erosão do mundo.

 

James, me escute

um dia peguei a caneta

como quem pega pílulas

suicidas ou um punhal

e acho que não haverá

esperança para as máquinas

enquanto sangrarem

o menino Deus

e o menino poeta

 

– Augusto, larga essa, cara

de máquinas, espanhóis

e aquela fusão da nova língua

entre Angola Brasil Moçambique Cabo Verde?

 

e os olhos de James

a porra dos olhos de James

eram ali a erosão do mundo.

 

James, fiz um verso sobre nós

colocarei num poema para ti

“a distância de duas palavras Ainda não é uma solidão”

 

e eu lhe escreverei um poema

simparavocêmesmo

vocêmesmo

dizendo que vou por aí

cuspindo formas sangues ideais

leis e linguagens

enquanto acordo com o retirante português

(mais um dia de paixão e ódio)

me questionando

se você existe ou não

naquela velha pensão $385,00

da cidade do interior

e leio que descobriram

o genoma do novo homem

e da velha pedra

e que eles serão o novo Ouro

das Américas

assisto ao fingimento que concedeu

o Grammy à telenovela

e meu sangue e alma

ainda intactos.

 

escreverei um poema para ti, James

dizendo que vou me dissolver

à língua portuguesa

lei e linguagem, eu te disse

e quando quiser solidão

eh so escrever apenas a palavra:

– amor.

 

se não lhe escrever logo

se não lhe escrever nunca mais

eh porque ando ocupado

com o Novo Evangelho

Segundo o Não-Deus

minha alma ainda intacta

com o novo Ouro dos espanhóis.

leio sobre brexit e a new england

Derrida sabia, James

sabia tudo sobre nós

quando disse “a voz é o fenômeno”

(um heterônimo de 100 em 100 anos

se preocupará contigo com forma estrutura)

ando tentando de tudo

até as Carolinas

yoga oriental, psicanálise, MPB

qualquer coisa para não

me perguntar

se eu e você, James

euevocê

existimos ou não

ou se fomos apenas a morte

do português brasileiro

Em cada euteamo

que levamos

à

 

Ruína.

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