Augusto Soares – Heterônimo

 

Poema-Crônica de Carlitos D. A.

-psicografando Nelson Rodrigues ou alguma coisa que se mexe do lado das batatas

o João de barro avança como luz

(e minha pressão 13 por quanto?)

and now the Brazil is Brazil with z american people

meu deus do céu ai-meu-deus-do-céu

olhem o fracasso do ponteiro

o menino coleciona fracassos de ponteiros

ladies oh ladies n’ gentlemen american people

quando o tempo não pode com o homem

e é furo depois da Hora do Brazil e do milagre da nação das Bananas e do ferro

eu juro que vi o espírito de Elza Fitzgerald tocando ukulele no calçadão do Rio

no Rio do Hit que abraçou o mundo e hoje tem fome de abraço

qualquer-coisa-fica-bonita-na-manchete

o João de barro avança agora ele é menino ele é a história

nasceu do ventre do santo do homem do batuque do pecado da bossa da desgraça

 

depois dos comerciais, ladies n’ gentlemen

o físico epilético, não, não, a física elíptica

mas agora o João de barro constrói o Brazil

no dendê e na eletronegatividade do frâncio

no grande seio manto do Brazil z de zebra

e amanhã é jogo do bicho é carimbo no jogo do bicho

vai vai vai vai vai menino

que a mesa de jantar te aplaude com osso sangue e anemia

e a oferenda tem coxinha e pipoca doce

vai e não volta, ladies n’ gentlemen, o que vai não volta

e eu juro que eu vou ter um enfarto

é mais historia do que aguenta um minuto

o que eu vou dizer pra criançada, ladies n’ gentlemen

pra molecada do bairro

depois que afrouxar o nó da gravata e da garganta

o que eu falo pro patrão sabido pra lua da madrugada

pro engraxate pro gabinete pro setorista

pra Iemanjá pro sambista pro explorado pra ressaca

o que eu vou dizer para as minhas palavras

que esse país é uma saudade

(e dizem que toda saudade tem espírito)

tem espírito como a mata depois que morta

e esse menino nos transformou em mundo

like we’re the world american people

but we were born to be nothing

 

(vai vai vai vai não vou…)

desconstruam o hino da vitória

escrevam um capítulo com o barro desse povo

que nasceu Peri que nasceu Ceci que nasceu da morte

Jornal do Brazil zil zil agora somos tecnofuzil

história é mais história dentro da manchete e fora do instante

e o mundo amanhã vira-lata

é pedra, menino, é só uma pedra no teu caminho

enquanto tu avança e vence o nosso tédio

enquanto tu avança e vence o nosso ódio

é bola na bola é bola na bola é bola e ebola

tu que gira o manto universal

num eixo latinocêntrico

e faz dessa maldita coisa de américa

uma outra coisa de Deus-pai

e o branco negro vira produto importado

e o negro branco vira especiaria pro Oriente

e tem massacre Tupinambá na tese de doutorado lá nos States

e tem brasileiro no NY Times

e tem brasileiro na manchete popular

e tem sambista chique no estrangeiro

<não vou que eu não sou ninguém de ir…..>

sambista amassando o pão do diabo

do prêmio Nobel do doutorado

filet l’ancienne na marmita de ontem

o editor da redação vai colocar uma notinha-nova-e-quente

do ladinho dos milagres de Saramago

vai tirar o não do cerco de Lisboa

do bilhete da loteria

da resposta de Deus

e quando tu for, menino de José

e quando tu for, menino de José

a nação volta pro barro barroco barraco

 

-mas hoje tem feijoada e Pelé.

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One thought on “Augusto Soares – Heterônimo

  1. Rapáizi!
    ( assim é que os nordestinos se referem a alguém quando admirados e sempre gostei deste “rapáizi!” Lá deles. Muito melhor que um “rapaz”.)
    Mas, rapáizi!
    A coisa é que eu vejo muito dos poetamentos do povo aí na rede. Uns poetam prá dentro, outros poetam em torno do umbigo, o que acaba dificultando e tornando pesada a coisa. Às vezes.
    Uns poetam prá cima e somem num zum e aí eu fico aqui embaixo tentando localizar o bólido.
    E tem os que poetam prá baixo.
    De qualquer maneira, prá dentro ou prá baixo. Prá riba ou pro umbigo, você percebe quando encontraram seu eixo de poetamento. Não tem muito a ver com o texto, nem com a honestidade (que muitos são honestos), tem a ver com o dom de poetar que é uma coisa que se sente.
    Mas, rapáizi!
    Consegui não achar o teu rumo, mas um sinto um ritmo. Leio e penso: é, o sujeito tem verve.
    E eu acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre o teu poema.
    Abraço.

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