Artigo – Pátria Minha!

Um posicionamento político num país, num governo, nas reflexões, que já calejaram-se das mesmas e incessantes estruturas, que aí estão, e que num ciclo vicioso insistem em permanecer as mesmas, levando, invariavelmente, esse país ao ostracismo da poeira. O Brasil virou uma hecatombe, a crise virou uma commodity, consumida pela população.

Um furacão, talvez não tanto político, mas ainda de Estado, em que a rejeição por parte de absurdamente qualquer brasileiro, em qualquer ceara das relações possíveis humanas nesse país, é o timbre da modernidade no nosso tempo. E então nós rejeitamos. Nós rejeitamos um governo que não preocupa-se mais em aceitação, nós rejeitamos o brasileiro próximo, nós rejeitamos a ideia distante de pátria, o ideal perdido num verso de Vinicius, que tornou-se o Brasil. E então o fato, a história, o conhecimento, o diálogo, e qualquer um, que se tornou coadjuvante nas relações protagonizadas pelo ódio, são um esboço duma estrutura catatônica, que chegou num tal ponto, em que o limite não eclode no corrupto, na inflação, no colapso, no tempo-espaco, mas na percepção que o brasileiro tem de Brasil. Isso é um dano severo. Os avanços sociais da última década jogados ao caos nessa roleta de azar que gere a política, o clima de instabilidade social e ruptura das preservações constitucionais do cidadão e do país, são a amostragem dessa grande sensação e real existência de dano, de perda, do brasileiro no Brasil. O pais do espetáculo em que o espetáculo tornou-se a propaganda e a capacidade de viralidade – dos fatos. Eu, jovem, digo, e pesa a linha. Eu não sei mais o que é o Brasil. Eu não sei quem eu ataco, quem eu rejeito, eu me perdi do fio tênue que conduzia a essência brasileira, e esse abstrato deslocamento, ou “desloucamento”, assinalado em Kafka, meu próprio com o meu país, doí. O século XXI chegou. E ele não nos trouxe um Drummond. Ele trouxe o laço de afetividade entre nós. A nossa interconexão pos-moderna. O que nos liga, o que nos mantem e sustenta como corpo de nação: a rejeição. E isso permanece ainda por muito tempo, porque enraizou-se no ser ou não ser desse país. É o timbre que conduz o espetáculo da viralidade: a rejeição do público. E como disse o ufanismo de Vinicius, “Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho Pátria, eu semente que nasci do vento..”

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One thought on “Artigo – Pátria Minha!

  1. Tempos difíceis em que o insólito se consolida como normal, deixando de sê-lo. Muito bem observado! Resta-nos estar a par, cuidar de ainda tentar ver, porque é o único caminho possível de cooperação. Gratidão!

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