Heteronímia – Augusto Soares

Drummond Janes y yo

Há o poema sobre telégrafos
E todas as coisas que estão erradas
Sobre pensões em Down Hill, e o café manchando o New Yorker 
Há aquele Rio, velho Rio
Que ainda existe
E ao mesmo tempo
Fazemos existir
Nós gostamos de teimar, não gostamos?
Drummond Janes y yo
Clara, eu me lembro dos canhões em Lisboa
Disparates, e desfiles, e nos dois éramos tão pouco
Talvez um verso de esquecimento
Com o mesmo poder bélico
Da morte
Há ainda a imprensa chinesa
De chineses calando coisas
Periódicos falando coisas
Na teorias das multidões
Clara, talvez Borges sabia mais que os argentinos, afinal
Sabia mais que nós e os canhões lisboetos
É tão difícil ver Deus, você sabe
Yo paso bien, y usted?
Não quero contar as coisas
Que estão erradas
O amor que o poema faz existir e mata
Não nascemos no tempo dos telégrafos
Nem dos disparos
Mas ainda guardamos o Atlântico no bolso
E muito dessa mancha chamada

coração.

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5 thoughts on “Heteronímia – Augusto Soares

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