Augusto Soares – Heterônimo

O voo da Palmeira

 

Enquanto Lisboa trafega pelo

Rio

Pairando sobre nos a semiótica

Dos velhos Deuses de papel

– o Sol é o Deus deste país –

 

você disse a mim

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pai

As palavras e os números

Comparam nossas alturas

Nossos pés

– Não nossos passos -.

Seus sapatos são apertados

Para meus caminhos

Os meus, frouxos demais

Para os dele

 

Nossos silencios se

Contemplam e por um instante

Se completam:

 

Esta ele menor.

 

Onde está o homem

Daquele Olhar indiferente

Da autoridade fugidia

Da lenda mais obsoleta mas absoluta

Que cultivei por tanto tempo em jardins tão secretos

 

Onde está aquele homem

Das ausências

Que tive a piedade necessária

Da covardia

Para jamais matar em meus

Complexos

O vazio da cadeira

O chinelo sem espectro

O armário sem fantasma

Se move, caminha, assombra.

 

Traria de volta o Mito

A estátua a tragédia o Museu

Abandono o abandono

Para vê-lo

Homem de carne

Pai de carne

Fantasma de carne

Deserto de carne: comédia.

 

Bela esta risada

 

Por que porque em nome do sangue vermelho devo

Assassinar esta flor

Estúpida por ser rosa

Desertificar o que me constituiu

Tirar o cimento e o peso cinza do espelho

E o peso e o cimento do caixão Dela:

Não, não é mais tempo

De primaveras

 

O tempo é árido, vasto, varrido e

Morto. Ressuscita-lo?

 

Onde estão aqueles livros

Que me ensinaram

Que a literatura se curva ainda

Aos mais desesperados

Onde estão aquelas políticas

Que me ensinaram

Que as ideologias

Se curvam às guerras

Onde

Ainda

Aonde

Se foram aquelas paixões

Que me ensinaram

Que teus amores

Se cursaram aos ódios

 

Vai, figurante de pai

Vai, Desencanto de doçura

Vai, Figura patetica de paternidade

Vai

 

Embora tragas aquele Judas aquele Fausto aquela prostituta e aquela rejeição

Tira de algum recanto aquele meu medo meu nojo meu ódio

 

Preciso do impreciso e indecifrável

 

Como devorarei o meu filho

Sem fome de enigma

Com que trauma salvarei o próximo

E o distante

 

Ofusca este Sol

 

 

Antes que me diga que o melhor que o melhor que teu filho escreveu

 

Foi que o pior da escuridão é poder

Vê-La.